Havia sol e éramos novos

Descrição

havia sol e éramos novos “O passado é um lugar muito bonito. Era verão, os dias longos, havia sol e éramos novos. Quando olhamos para algo o tempo suficiente, essa coisa muda.” Com essas palavras Martim Ramos inicia a carta enviada à seu amigo, Jordi Burch, em que narra suas sensações quando retratado por ele, há quatro anos, em Lisboa. A atmosfera de um tempo que não existe mais, de um tempo suspenso, que mistura nostalgia, idealização, tristeza e ironia está presente em seu texto e nas imagens de Jordi. Será o passado um lugar mais confortável? Ou será isso uma ilusão da juventude? Em uma busca por si mesmo e por suas raízes, o artista registra e se projeta no outro, um familiar, um amigo, um pai, um irmão. Suas imagens são fragmentos que formam um quebra-cabeça que nunca está completo. São peças soltas, que flutuam, se tocam, se olham, mas não se encaixam plenamente. Catalão, Jordi foi para Lisboa aos cinco anos, onde passou sua infância e adolescência, e há mais de oito anos vive em São Paulo. Apesar de se dizer um homem do mundo, sem endereço definido, no Brasil criou raízes com o nascimento de seu filho Miguel, há pouco mais de dois anos. As fotografias desse livro partiram do projeto DR - Diário da República, idealizado pelos fotógrafos do extinto coletivo kameraphoto, entre eles, Jordi. Iniciado em 2010, ano em que Portugal celebrou o centenário da proclamação da República, DR propunha, a partir da documentação do país a cada dois anos, a construção de uma memória coletiva ao longo de uma década (2010-2020). A crise em Portugal está obviamente presente como pano de fundo nos retratos do artista, mas, como ele repete, “sempre lembro da frase de Stalin: ´A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística.´ Portugal aqui é uma consequência, tanto para mim, quanto para aqueles que fotografo.” No fim, este não é um trabalho sobre o país, é um trabalho sobre o artista e aqueles que o rodeiam. Suas fotos captam memórias afetivas e momentos íntimos. Ao mesmo tempo, são performáticas. Jordi pede aos fotografados que enviem suas impressões do momento do registro e alguns destes relatos também estão aqui presentes. Em um exercício similar, o artista divide suas impressões: “É como se a vida fosse um filme que pausamos na parte que mais nos interessa. É no momento desse pause que aparecem as referências em nós entranhadas. Não consigo trabalhar sobre a morte sem olhar para a vida, ou viver intensamente. O interessante são as sutilezas desse lugar neutro, que é o de estar vivo a pensar na morte. São pequenas coisas que sentimos, que não são palpáveis. Qual é a forma da morte? Do amor? Da saudade? Não sabemos, mas sentimos. É aí que a arte nos ajuda. Dá-nos a forma das coisas simples que não conseguimos ver.” Isabella Lenzi Junho de 2015

null

null

null

null

null

null

null

null

null

null

null

null

null

null

null

null

null

null

null